top of page
Buscar

Finados: a saudade de quem partiu, o cuidado com quem ficou

agdagalvaopsic
há 13 minutos
5 min de leitura


Há ausências que sentimos nas pequenas coisas.... Na vontade de contar uma novidade, numa receita que nunca mais teve o mesmo sabor, no lugar à mesa que os olhos ainda procuram...


No Dia de Finados, essas lembranças podem chegar com mais força. E mesmo quando muitos anos se passaram, uma fotografia ou uma palavra pode nos devolver, por um instante, a falta que aquela pessoa faz.


Este dia nos convida a pausar diante da saudade daqueles que partiram e da nossa própria finitude. Para muitas pessoas, é também um tempo sagrado de lembrança. Visitamos um túmulo, fazemos uma oração, reunimos a família, acendemos uma vela ou simplesmente permanecemos um pouco mais em silêncio.

Há histórias que contamos outra vez porque recordar juntos nos aproxima de quem partiu e de quem ainda está ao nosso lado. Cada um vive esse dia como pode. Alguns encontram conforto nesses gestos; outros sentem uma tristeza difícil de compartilhar.


Na perspectiva junguiana, os símbolos e os rituais podem oferecer uma forma de expressão para experiências que a razão, sozinha, não consegue abarcar. Uma flor deixada sobre um túmulo pode carregar uma história inteira. Às vezes, é por meio de um gesto simples que conseguimos expressar algo para o qual ainda faltam palavras.


O olhar junguiano sobre a finitude nos convida a reconhecer que a vida também se constitui de limites, mudanças e despedidas. A imagem do sol, que se eleva, alcança o zênite e segue em direção ao poente, ajuda a pensar nas diferentes tarefas que encontramos ao longo da existência. Na segunda metade da vida, as perguntas sobre o sentido do que vivemos e sobre aquilo que ainda desejamos realizar podem ganhar maior importância. Esse movimento, porém, não acontece de maneira igual para todos, nem conduz necessariamente a uma aceitação serena da morte.


Podemos compreender que a morte faz parte da existência e, ainda assim, desejar profundamente mais uma conversa, mais um abraço, mais um pouco de tempo. Nenhuma compreensão teórica substitui a presença de alguém amado. Diante de uma perda, até convicções que pareciam firmes podem se tornar insuficientes. Também precisamos de espaço para as perguntas que permanecem sem respostas.


Para quem fica, há um caminho íntimo de aprender a viver com a ausência. A pessoa amada participou da nossa história e deixou marcas em nossa maneira de sentir, de cuidar e de olhar o mundo. Sua morte modifica a vida cotidiana e também a forma como nos reconhecemos nela.

Quem sou eu sem essa companhia? Com quem partilharei aquilo que só nós dois compreendíamos? Como atravessar datas, lugares e acontecimentos que antes tinham uma presença tão certa?


Aos poucos, e sem que isso possa ser exigido, podemos encontrar outras formas de nos relacionar com as lembranças e com aquilo que esse vínculo representa em nossa vida interior. Uma lembrança que hoje faz chorar talvez, em outro momento, também permita sorrir. E haverá dias em que as duas coisas acontecerão juntas. Nada disso precisa obedecer a uma sequência ou a um prazo.


Nem toda despedida, porém, encontra uma relação em paz. À saudade podem se misturar mágoas, culpa, alívio, perguntas e palavras que ficaram por dizer. Também esses sentimentos precisam de acolhimento. A morte de alguém não resolve, por si só, a complexidade do vínculo que tivemos. Quem ficou merece poder recordar com honestidade, sem precisar transformar toda a história em uma lembrança perfeita.


Pensar o luto em relação ao processo de individuação exige esse respeito pela experiência singular. Na psicologia analítica, a individuação envolve uma aproximação mais consciente da própria realidade psíquica, incluindo aspectos que desconhecemos, recusamos ou temos dificuldade de admitir. Uma perda pode mobilizar esse processo ao modificar referências importantes e nos colocar diante de sentimentos e perguntas que antes não encontravam lugar, mas o sofrimento, por si só, não garante amadurecimento.

Há momentos em que a tarefa possível é apenas atravessar o dia e contar com alguém que nos acompanhe.


O luto pode tornar especialmente penoso o esforço de parecer bem. A persona, ligada à maneira como nos apresentamos e nos adaptamos à vida social, nem sempre consegue acomodar aquilo que estamos vivendo intimamente. Continuamos trabalhando, respondendo às pessoas, cumprindo compromissos, enquanto uma parte de nós ainda tenta compreender o que aconteceu. Poder dizer “hoje está difícil”, sem precisar justificar a própria dor, pode trazer algum alívio. E preservar a intimidade, quando não desejamos falar, também merece respeito.


O cuidado que antes dirigíamos à pessoa amada pode ficar sem os gestos cotidianos pelos quais se expressava. Já não há para quem telefonar naquele horário, para quem preparar determinada comida ou de quem esperar notícias. Algumas pessoas encontram, com o tempo, maneiras de dar continuidade a algo que viveram nessa relação. Outras precisam de um longo período antes de desejar qualquer movimento nessa direção. O amor por quem faleceu não precisa ser demonstrado por uma obra, um projeto ou uma transformação pessoal.


A relação com as imagens e lembranças de quem partiu também pode se modificar. Podemos reconhecer uma expressão dessa pessoa em nossos próprios gestos, recordar um conselho, sonhar com ela ou imaginar o que diria diante de uma situação. Essas experiências podem ser compreendidas simbolicamente, considerando o que significam para cada um. Nem sempre trazem conforto; por vezes, despertam conflitos e intensificam a saudade, por isso merecem ser escutadas sem interpretações apressadas e sem a exigência de que produzam uma resposta.


O confronto com a morte de alguém querido pode ainda nos aproximar de questões sobre a nossa própria vida. O que temos adiado? Como estamos cuidando de nossos vínculos? Que escolhas continuam importantes para nós? Essas perguntas podem ganhar sentido ao longo do tempo. Quando a perda é recente, porém, talvez seja cedo para respondê-las. A dor não precisa se tornar imediatamente uma lição sobre como viver.


A elaboração do luto pode abrir espaço para novas compreensões, mas também inclui períodos de desorganização, cansaço e silêncio. Haverá coisas que poderão ser ressignificadas e outras cuja falta continuará sendo sentida. O acolhimento precisa alcançar essa realidade, sem prometer que toda ferida encontrará um sentido ou que toda saudade se tornará mais leve.


Neste Dia de Finados, que seja possível lembrar com liberdade. Falar de quem partiu, repetir suas histórias, chorar sem constrangimento ou guardar silêncio. Que a alegria, quando voltar, possa ser recebida sem culpa. A possibilidade de desfrutar novamente da vida pode conviver com o amor e com a saudade de quem morreu.


Aos familiares e amigos que hoje sentem uma ausência, meu carinho. Que encontrem companhia e respeito pela singularidade de sua dor, sem cobranças para reagir, superar ou demonstrar força. Há dias em que precisamos falar. Em outros, precisamos apenas de alguém que permaneça por perto. E que, entre as homenagens a quem morreu, haja também um gesto de ternura por quem ficou.


02/11/2026


Em memória de todos os meus familiares que partiram:

Aos meus familiares que já partiram, dedico estas palavras com amor e saudade. Ao escrever sobre a ausência, penso em cada um de vocês e na história que compartilhamos. Sinto falta das vozes, das conversas e de tantas pequenas coisas que faziam parte da nossa convivência.

Hoje, minha homenagem é também um agradecimento pelo que vivemos juntos. Guardo comigo as lembranças e as marcas que cada um deixou em minha vida. Que o Divino os acolha em Sua paz.


Agda Galvão


Psicoterapeuta Junguiana

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Escritório Dra. Agda..png

Contate-me

Clique no ícone do Whatsapp e fale comigo!

Agda Galvão

​Rua Tavares, 83
Macedo - Guarulhos - SP

Tel: (11) 9 9994-6677

Copyright © 2026 | ​Psicoterapia Junguiana por Agda Galvão.

bottom of page