Por que é tão difícil ignorar o que nos irrita nas redes sociais?

Você abre um vídeo durante uma pausa e encontra alguém dizendo algo que lhe parece absurdo. Continua assistindo, procura os comentários, sente algum alívio ao encontrar quem também se indignou. Uma resposta chama sua atenção pelo tom ofensivo. Você começa a escrever, apaga, reformula. Quando percebe, a pausa acabou e aquela conversa continua acontecendo dentro de você, embora o celular já esteja sobre a mesa.
Nas redes, esse tipo de captura ganhou um nome: ragebait, expressão que pode ser traduzida como “isca de raiva”. São conteúdos produzidos para provocar indignação e obter engajamento.
Quem os publica pode encontrar vantagem até nas manifestações de repúdio, pois a discussão ajuda a manter o conteúdo em circulação. Para quem assiste, porém, a experiência tem outra duração. A irritação pode acompanhar o jantar, interferir na atenção dada a alguém próximo e reaparecer quando se tenta adormecer.
A raiva merece ser escutada com cuidado. Ela participa da nossa capacidade de reconhecer uma violência, perceber um limite violado e reagir ao que consideramos injusto. Há situações em que se indignar expressa uma percepção ética necessária. Ao mesmo tempo, a intensidade de uma reação pode reunir elementos que pertencem a diferentes momentos da nossa vida.
Uma fala encontrada por acaso adquire um peso particular quando toca experiências de humilhação ou de descrédito que ainda conservam sua força afetiva.
Na psicologia analítica de Jung, o conceito de complexo ajuda a compreender essa experiência. Um complexo reúne imagens, lembranças e afetos em torno de um núcleo emocionalmente significativo. Quando é constelado, quando explode, pode influenciar a percepção e reduzir nossa liberdade de resposta. A pessoa continua diante de uma situação presente, mas passa a vivê-la sob a pressão de uma história que se atualiza naquele encontro. Isso ajuda a pensar por que um comentário ocupa, às vezes, um espaço tão grande em nós.
Alguém que precisou lutar durante anos para ser levado a sério pode sentir uma urgência dolorosa de responder a um desconhecido que ridiculariza sua opinião. A conversa passa a carregar a expectativa de finalmente obter um reconhecimento que faltou em outros vínculos. Cada nova resposta parece oferecer uma oportunidade de reparar alguma coisa, enquanto prolonga a exposição à mesma experiência de desconsideração.
A reflexão sobre a sombra acrescenta outra dificuldade. Nossa imagem consciente de quem somos deixa de fora aspectos que temos dificuldade de admitir como próprios. Uma pessoa profundamente comprometida com a delicadeza pode reconhecer, numa discussão, o desejo de humilhar. Outra, que valoriza a liberdade de pensamento, pode se surpreender tentando impor silêncio a quem discorda. Admitir essas contradições exige suportar algum desconforto com a própria imagem. É nesse trabalho que se amplia a possibilidade de escolher o que fazer com aquilo que sentimos.
Cabe prudência ao falar de projeção. A existência de crueldade e de preconceito pede reconhecimento em sua realidade concreta. Investigar a participação da nossa história numa reação exige preservar essa dimensão do acontecimento. A pergunta sobre o que foi mobilizado em nós pode acompanhar uma posição firme diante do que ocorreu, sem transformar a pessoa atingida em responsável pela violência recebida.
É difícil ignorar aquilo que nos irrita porque a provocação pode atingir algo a que atribuímos profundo valor. Diante de uma fala que nos desqualifica, sentimos ameaçado o direito de sermos reconhecidos em nossa experiência. Quando um desconhecido ridiculariza uma dor que conhecemos de perto, suas palavras podem adquirir o peso de outras ocasiões em que fomos desacreditados. Surge então uma urgência de responder, como se deixar aquela frase sem contestação significasse permitir que tudo acontecesse outra vez.
A irritação mobiliza o corpo e estreita a atenção em torno do que a provocou. Mesmo depois de fechar a tela, podemos continuar ensaiando argumentos, procurando a formulação que finalmente faria o outro compreender. A discussão permanece aberta por dentro. Esperamos que uma resposta bem construída produza algum reconhecimento, restabeleça um senso de justiça ou alivie a sensação de termos sido diminuídos. Voltar aos comentários renova essa expectativa, sobretudo quando uma notificação anuncia que o outro respondeu.
Sob a perspectiva junguiana, quando um complexo é constelado, a situação presente ganha a carga afetiva das experiências que se organizaram em torno dele. A intensidade pode surpreender a própria pessoa: ela percebe que está sofrendo, gostaria de parar, mas sente que ainda precisa dizer alguma coisa.
Em certas discussões, a dificuldade de sair envolve justamente essa esperança de conseguir, naquele encontro, uma reparação que faltou em outro tempo. O desconhecido passa a ocupar um lugar importante demais em nossa vida psíquica; por isso, recomendar que alguém simplesmente ignore pode deixar intocada a parte mais dolorosa da experiência. Para quem aprendeu a engolir ofensas, afastar-se de uma discussão pode se parecer com voltar a silenciar.
Quem teve sua percepção repetidamente desqualificada pode precisar que o outro admita o que fez para conseguir confiar no próprio julgamento. São histórias diferentes, que pedem compreensão cuidadosa. A pergunta sobre o que nos prende ali precisa alcançar o significado que atribuímos à saída.
Há uma dor particular em perceber que a pessoa de quem esperamos
reconhecimento pode continuar nos tratando com desprezo. Podemos explicar com precisão o que nos feriu e receber outra ironia. Aceitar esse limite exige tempo, especialmente quando ainda carregamos a "esperança" de encontrar as palavras capazes de mudar a disposição do outro. A compreensão de nossa própria reação começa a oferecer alguma liberdade quando conseguimos reconhecer essa esperança e o quanto ela está nos custando.
Em certas noites, depois de uma discussão, o que permanece é a dor de ter sido tratado como se aquilo que sentimos fosse irrelevante. Essa dor merece encontrar escuta. Podemos começar por reconhecer, com honestidade, o quanto fomos atingidos e procurar alguém com quem seja possível elaborar o que aconteceu. Assim, o reconhecimento de que precisamos começa a encontrar outros caminhos, para além da resposta que continuamos esperando naquela tela...
Agda Galvão
Psicoterapeuta Junguiana
11.12.26



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