Quando o Sofrimento Protege
- agdagalvaopsic
- há 2 dias
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Há sofrimentos dos quais a pessoa quer se livrar o mais rápido possível. E isso é compreensível. Quem sofre quer alívio. Quer respirar melhor dentro de si. Quer parar de repetir o que machuca, o que esgota, o que estreita a vida, mas nem sempre aquilo que faz sofrer está ali apenas como problema, erro, excesso ou falha.
Em alguns casos, o sintoma também cumpre uma função de proteção. Ele pode ser a forma precária pela qual a psique tenta evitar uma desorganização maior. Isso não torna o sofrimento bom. Nem significa que ele deva ser mantido. Mas exige que ele seja compreendido antes de ser apressadamente combatido.
Nem todo sintoma é apenas um inimigo
Vivemos em uma cultura que valoriza respostas rápidas. Sofrer passou a ser algo que precisa ser eliminado logo, corrigido, superado, silenciado. Há algo legítimo nesse desejo. Ninguém quer permanecer preso à dor, mas a vida psíquica nem sempre funciona de modo tão simples.
Nem todo sintoma é apenas sinal de desordem. Em muitos casos, ele é também tentativa de organização. Aquilo que faz sofrer pode ser, ao mesmo tempo, o que impede uma desagregação maior. O sintoma não é apenas aquilo que dói. Às vezes, é também aquilo que sustenta.
Pode funcionar como contenção, como defesa contra experiências internas mais caóticas, mais primitivas, mais difíceis de suportar. Por isso, antes de perguntar apenas como fazer o sofrimento desaparecer, talvez seja preciso perguntar: o que ele está protegendo?
O que o sofrimento pode estar evitando
Essa é uma pergunta decisiva porque sem ela, corre-se o risco de tratar o sintoma como simples obstáculo, quando ele pode estar cumprindo uma função de manter uma certa coesão interna. Retirá-lo sem compreender sua lógica pode ser como arrancar uma raiz sem saber o que ela ainda sustenta no solo.
Às vezes, o sintoma protege contra um medo muito antigo. Em outras, protege contra o vazio, contra a dor sem nome, contra afetos que ainda não puderam ser integrados. Pode proteger contra sentimentos de abandono, desamparo, culpa, raiva ou fragmentação para os quais a pessoa ainda não dispõe de recursos internos suficientes.
Isso muda a pergunta.
Em vez de apenas “como me livrar disso?”, torna-se necessário perguntar: o que ainda torna perigoso viver sem isso?
Quando o controle vira defesa
Isso aparece com clareza em pessoas muito controladoras. Pessoas que precisam prever tudo, organizar tudo, revisar tudo, vigiar o ambiente e a si mesmas sem descanso. À primeira vista, parece apenas ansiedade. E, de fato, há sofrimento ansioso aí. Mas, em certos casos, esse controle excessivo não é o núcleo do problema. É a defesa construída contra algo mais ameaçador.
Sem controle, a pessoa pode sentir que tudo desaba. Pode experimentar o mundo interno como algo invasivo, sem borda, sem forma. O controle, então, não é apenas rigidez. É tentativa de não colapsar.
Por isso, dizer simplesmente “relaxe” ou “pare de controlar” nem sempre ajuda. Para certos psiquismos, abrir mão cedo demais do controle pode ser vivido como exposição ao desamparo.
Quando a apatia protege da inundação
Algo semelhante acontece em estados de apatia, congelamento afetivo ou embotamento. Há pessoas que vivem como se estivessem desligadas de si mesmas. Têm pouca vitalidade, pouca mobilização, pouca capacidade de desejar ou de sentir intensidade. De fora, isso pode parecer desinteresse, frieza ou acomodação, mas nem sempre é assim.
Em muitas histórias, a apatia funciona como defesa contra uma dor que, se viesse à tona de uma vez, seria vivida como inundação. O embotamento pode ser uma anestesia psíquica. A vida fica mais estreita, mais pálida, mais reduzida, mas permanece suportável.
Nesses casos, não basta perguntar por que a pessoa não reage. É preciso perguntar o que aconteceria se ela começasse a sentir mais.
Quando a repetição também sustenta
Isso ajuda a compreender por que certas pessoas permanecem em vínculos que as machucam. De fora, parece simples: se faz mal, por que continuar? Mas a repetição nem sempre é uma escolha consciente. Muitas vezes, ela expressa fidelidade inconsciente a formas antigas de vínculo, mesmo quando dolorosas.
Em alguns casos, permanecer em uma relação empobrecida protege contra algo que parece ainda pior: o vazio, o abandono, a sensação de não ter chão interno. Melhor a dor conhecida do que o desamparo sem forma. Isso não torna o vínculo saudável. Mas mostra que ele pode estar cumprindo uma função psíquica que precisa ser lida antes de ser julgada.
Quando o corpo fala
Há momentos em que o corpo também entra nesse circuito. Não se trata de reduzir tudo a uma explicação psicológica simplista. O sofrimento corporal é real e precisa ser levado a sério, mas, em alguns casos, o corpo pode participar da economia defensiva da psique.
Insônia persistente, tensões recorrentes, fadiga sem explicação orgânica suficiente, certos sintomas funcionais podem operar como formas de concentrar a experiência em um nível mais administrável. Quando a psique não consegue simbolizar, o corpo muitas vezes carrega.
É importante dizer isso com clareza. Afirmar que o sintoma pode proteger não significa romantizar a dor. Não significa dizer que sofrer é desejável ou sábio em si. Há sintomas destrutivos. Há sofrimentos que empobrecem, cronificam e aprisionam.
Mas mesmo nesses casos, uma escuta clínica séria precisa perguntar: o que isso mantém? O que isso evita? O que isso amarra? O que isso beneficia? A quem beneficia?
O que isso muda na clínica
Quando compreendemos isso, o manejo muda. A primeira tarefa não é eliminar o sintoma, mas construir condições para que ele se torne menos necessário. Sintomas raramente se dissolvem de modo estável apenas porque foram combatidos. Eles tendem a ceder quando a psique encontra formas mais integradas de sustentação.
Isso significa mais capacidade de reconhecer afetos, nomear conflitos, suportar ambivalências e atravessar a dor sem ruptura. Em outras palavras: a defesa só pode ser desmontada com segurança quando algo mais vivo começa a tomar o seu lugar.
Por isso, o trabalho clínico exige prudência. Às vezes, aquilo que a pessoa mais quer eliminar é justamente o que ainda a mantém em pé. Não se trata de condená-la a isso, mas de reconhecer que a retirada de uma defesa precisa acompanhar a ampliação do continente psíquico.
A ética de não humilhar o sintoma
Aqui entra uma exigência ética importante. Não se trata de se aliar ao sintoma, reforçando sua lógica. Mas também não se trata de humilhá-lo, como se ele fosse apenas fraqueza, desvio ou obstáculo irracional.
O sintoma precisa ser escutado até onde revela sua função, sua lógica e seu custo. Só então se pode começar a ajudar o sujeito a construir outras formas de sustentação.
Em vez de arrancar, diferenciar; em vez de abolir, simbolizar; em vez de exigir que cesse, compreender de que modo ele ainda protege.
Quando o sintoma pode perder centralidade
Com o tempo, se o trabalho analítico se aprofunda, algo começa a mudar. O paciente amplia a capacidade de reconhecer o que sente, nomear conflitos, sustentar ambivalências e sobreviver internamente a experiências antes vividas como insuportáveis. E, então, o sintoma pode perder centralidade. Não porque foi destruído de fora, mas porque se tornou menos necessário.
Essa diferença é decisiva. O que desaparece por repressão tende a retornar de outro modo. O que se transforma por integração cede de forma mais orgânica. A defesa não é demolida à força. Vai sendo substituída por estruturas mais vivas, mais conscientes, mais flexíveis.
A pergunta que realmente importa
No fundo, a pergunta “por que esse sintoma não desaparece?” muitas vezes está mal formulada. Em muitos casos, a pergunta mais fecunda é outra: “o que ainda tornaria perigoso viver sem ele?”
É essa pergunta que abre o verdadeiro campo clínico. Porque ela desloca a atenção do incômodo manifesto para a organização profunda da personalidade.
Nem todo sofrimento pede eliminação imediata. Alguns sofrimentos estão fazendo, de maneira cara e dolorosa, o trabalho de evitar algo pior. Reconhecer isso não glorifica a dor, mas impede que ela seja tratada de forma apressada, superficial ou violenta.
A tarefa analítica não é louvar esse arranjo. É compreendê-lo tão profundamente que a pessoa já não precise continuar pagando com sofrimento o preço de manter-se unido. Quando isso acontece, algo se desloca... O sintoma já não precisa sustentar, sozinho, as ruínas; e a psique pode começar a transformá-las em solo fértil.
Agueda Galvão
Psicoterapeuta Junguiana



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