Não é só uma Virada de Ano
- agdagalvaopsic
- há 2 dias
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Ano novo. Atravessamos mais uma curva do tempo.
Enquanto o mundo celebrou com fogos, contagens regressivas e promessas apressadas, pode haver algo mais sutil, mais íntimo, acontecendo no fundo do ser humano… basta prestar a atenção em si. Um convite silencioso à reflexão, uma pausa sagrada entre o que já não é e o que ainda não chegou.
É comum pensarmos em resoluções, listas, metas. Mas talvez, mais do que decidir o que queremos fazer, o verdadeiro movimento seja outro: escutar o que a vida deseja nos revelar. Escutar o que, dentro de nós, está pedindo espaço, reconhecimento, cuidado.
Nem sempre o novo começa quando queremos. Ele nasce quando estamos prontos para vê-lo.
Há um tempo da alma que não segue o calendário. Um tempo interior que não se mede em minutos, mas em significados. Enquanto todos correm para o próximo objetivo, talvez o maior gesto de coragem seja parar. Respirar. Perceber o que realmente importa.
Na natureza, antes da flor, vem a semente. E antes da semente, o silêncio escuro da terra. Assim também é com a alma. O que floresce fora, primeiro precisa ser gestado dentro.
Esse novo ano pode ser menos sobre fazer e mais sobre ser. Pode ser um tempo de voltar-se para dentro e perguntar: o que me trouxe até aqui? O que está pedindo para ser deixado? O que ainda pulsa, silencioso, esperando para ser vivido?
Muitas vezes temos dificuldade de aceitar que algo terminou. A cultura nos empurra para frente, nos faz acreditar que parar é perder. Mas encerrar é um ato de respeito. É reconhecer que o ciclo se cumpriu. Que há algo em nós que já viveu o que precisava, e agora pede passagem para o novo.
A morte simbólica faz parte do movimento da vida. É como o inverno que prepara o solo para a primavera. Não é ausência de vida, é vida em outra forma.
O que você precisa soltar? Qual dor ainda se repete por não ter sido ouvida? Quais promessas você fez a si mesmo e esqueceu?
Tudo isso merece ser acolhido com gentileza.
Nem todo recomeço é grandioso. Às vezes ele é pequeno, imperceptível. Como um broto que rompe a terra ainda úmida. Como uma intuição suave. Como um sonho que volta a aparecer depois de muito tempo.
Cuidar de si neste momento é honrar esse broto. É não exigir pressa. É perceber os pequenos sinais de mudança que começam a se manifestar, no corpo, nos pensamentos, nas escolhas.
A alma não grita. Ela sussurra. E só escuta quem silencia.
Cada um de nós carrega, dentro de si, muitas faces. Imagens que se manifestam em diferentes momentos da vida. Há em nós a força da Mãe que acolhe, do Pai que sustenta, do Guerreiro que enfrenta, da Sábia que escuta em silêncio, do Amante que deseja, da Criança que sonha, do Ancião que observa com calma.
Essas imagens não são invenções. São expressões profundas da alma humana. Elas nos habitam. E de tempos em tempos, uma delas vem à tona, buscando expressão.
Neste novo ciclo, talvez seja hora de dar lugar à parte sua que foi silenciada. De reconhecer a imagem que está tentando emergir, não para controlá-la, mas para compreendê-la.
Não precisamos começar o ano com pressão. Com listas que só alimentam a culpa. A alma não trabalha sob metas. Ela floresce com sentido.
Ao invés de metas, experimente escrever uma intenção. Uma única frase que te ancore neste momento. Algo como:
— Quero viver com mais verdade.
— Desejo estar mais presente.
— Escolho respeitar meu ritmo.
— Estou pronta para acolher o que sou.
Intenções não exigem. Elas abrem caminhos.
O novo ano não é uma folha em branco. Ele traz as marcas do que foi vivido. Ele é continuidade. E também é possibilidade.
Que você possa olhar para trás com respeito, mesmo que nem tudo tenha sido como gostaria. E que possa olhar para frente com serenidade, mesmo sem saber o que virá.
Nada precisa estar resolvido. Basta estar consciente.
Porque a verdadeira transformação não começa fora, mas dentro.
Quando olhamos para nós mesmos com honestidade e coragem. Quando aceitamos ser quem somos, ainda que em processo. Ainda que imperfeitos.
Neste novo ciclo, que você se escute mais. Que tenha paciência com seus próprios invernos. Que acolha sua luz, mas também suas sombras. Que reconheça que todo ser humano é feito de partes, e que todas elas merecem um lugar.
Que seja um tempo de verdade. De silêncio. De beleza simples.
E, diante de tudo isso, veja: pode não ser só uma virada de ano. É, talvez, uma virada de ânimo, uma inclinação sutil da alma para dentro. Uma tomada de consciência que não começa no calendário, mas no coração. Um reencontro silencioso com o que há de mais verdadeiro em você. Uma travessia para viver com mais inteireza, sentido e presença.
Feliz novo ciclo! Que ele venha de dentro.
Agda Galvão
Psicoterapeuta Junguiana



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