Ano Novo não é promessa; é limiar.
- agdagalvaopsic
- 30 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

O Ano Novo costuma ser vendido como um recomeço mágico: roupas brancas, listas intermináveis de metas, frases motivacionais repetidas como mantras vazios. Mas a psique não funciona por decretos. A alma não obedece ao calendário.
Do ponto de vista junguiano, o Ano Novo pode ser um limiar psíquico. Um ponto de passagem simbólico onde o velho ainda não morreu completamente e o novo ainda não nasceu. É um território instável, e por isso mesmo, fértil.
Entrar em 2026 pode pedir menos euforia e mais consciência.
Todo ritual de passagem carrega riscos. Um deles é o excesso: de estímulos, de expectativas, de promessas.
Excesso de festas que anestesiam, mas não integram. Excesso de álcool que silencia a angústia momentaneamente, mas cobra juros psíquicos depois. Excesso de metas que não nascem da alma, mas da comparação. Excesso de positividade tóxica que não permite o luto do que não foi.
Na Psicologia Analítica, aprendemos que tudo aquilo que é vivido em excesso cai na sombra. E a sombra não desaparece: ela retorna, geralmente como sintoma.
Evitar excessos em 2026 não é moralismo. É higiene psíquica.
Vivemos um tempo coletivo marcado por pressa, colapsos emocionais, esgotamento silencioso e relações frágeis. A psique contemporânea está cansada. Fingir que um novo número no calendário resolve isso é um engano perigoso.
Penso que o convite simbólico deste novo ciclo não é “faça mais”, mas perceba melhor.
Perceba onde você se abandona para ser aceito. Perceba onde repete padrões antigos esperando resultados novos. Perceba onde o corpo adoece para dizer o que a consciência ignora.
Jung nos lembra que aquilo que não se torna consciente retorna como destino.
O Ano Novo é uma chance de interromper automatismos, não de criar ilusões.
Promessas de Ano Novo costumam ser feitas ao ego idealizado, não ao Self. Prometem corpos irreais, vidas editadas, performances constantes. O ego adora prometer; o inconsciente cobra.
Em 2026, talvez a pergunta mais honesta não seja:
“O que eu quero conquistar?”
Mas sim:
“O que em mim pede amadurecimento?”
Individuação não é sucesso externo. É coerência interna.
É justamente a dificuldade de sustentar processos internos que faz com que, a cada época, surjam novas promessas de solução rápida. Quando a linguagem muda, mas a fantasia permanece, o conteúdo é outro, mas a lógica é a mesma. É nesse ponto que entram, hoje, discursos revestidos de linguagem científica.
Observe algo que vem como um novo verniz, e que estamos assistindo todos os dias... Nos últimos tempos, essas promessas ganharam uma nova roupagem: agora vêm embaladas em termos da neurociência.
Aprende-se onde fica o córtex pré-frontal, a amígdala, o hipocampo, o sistema límbico. Aprende-se a nomear circuitos, áreas, reações. Tudo isso é conhecimento válido, mas insuficiente.
Saber onde algo acontece biologicamente não ensina, por si só, o que fazer com as repetições emocionais, com os vínculos que adoecem, com o vazio que insiste.
Saber onde fica a amígdala não ensina o que fazer com o medo. O problema não é onde isso acontece no cérebro... mas por que isso se repete na sua vida.
Saber onde funciona o córtex pré-frontal não ensina, por si só, a planejar melhor nem a regular os processos emocionais envolvidos na procrastinação.
A psique não se transforma por nomenclatura. Conhecer o cérebro amplia a compreensão do nosso funcionamento biológico, mas não resolve, por si só, as questões da alma; a transformação acontece em processos terapêuticos consistentes, vividos no tempo, independentemente da abordagem.
Enfim, se este texto pudesse deixar orientações simbólicas claras para o novo ano, seriam estas:
- Evite viver no automático emocional.
- Evite relações onde você precisa diminuir sua alma para caber.
- Evite a espiritualidade usada como fuga da realidade.
- Evite confundir intensidade com verdade.
- Evite ignorar sinais repetidos: eles são mensagens, não coincidências.
A psique fala por símbolos, sintomas, sonhos e encontros. Ignorá-los custa caro.
O Ano Novo não exige juramentos públicos. Ele pede um pacto silencioso consigo mesmo. Um compromisso menos ruidoso e mais profundo: o de não se trair.
Talvez seja o ano de consolidar algo interno: limites, verdade emocional, presença e autocuidado. E isso, embora pouco instagramável, transforma destinos.
Lembre-se desta cena simples: uma criança cai e machuca o joelho. Diante disso, há duas possibilidades muito distintas. A primeira é a promessa rápida: dizer que não doeu, mandar levantar, pedir para esquecer. A segunda é a elaboração: limpar o machucado, permitir o choro, olhar com atenção onde dói, cuidar até que, pouco a pouco, a ferida cicatrize. A dor passa não porque foi negada, mas porque foi acolhida.
Dentro de nós, adultos, não é diferente. Também caímos. Também carregamos medos que retornam, tristezas que insistem, raivas que não sabemos bem explicar.
Elaborar não é resolver rapidamente, nem controlar emoções, nem substituí-las por versões mais aceitáveis. Elaborar é perceber o que sentimos, dar nome a isso, falar, pensar, sustentar o contato com a experiência até que ela encontre um lugar dentro de nós.
Não é um processo rápido. Não é mágico. Não acontece por decreto nem por promessa. Mas é assim que a alma amadurece: quando aquilo que dói é cuidado, quando o que confunde é escutado, quando o que retorna não é empurrado para longe, mas atravessado com presença.
Que este novo tempo não seja para correr de nós mesmos, mas para nos encontrar. Para olhar com carinho o que dói, o que confunde e o que ainda precisa de cuidado, em vez de fingir que tudo está bem.
Um excelente 2026 a todos!
Agda Galvão
Psicoterapeuta Junguiana



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