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Coincidência? Sincronicidade – quando o acaso tem alma

  • agdagalvaopsic
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 27 de jan.


Há momentos em que a vida parece cochichar não em frases claras, mas em acontecimentos.


Você pensa em alguém e, no mesmo dia, essa pessoa reaparece. Um livro “cai” da estante exatamente na página que responde à sua pergunta silenciosa. Um sonho insiste… e a realidade responde. Coincidência? Talvez. Mas talvez não apenas isso.


Para a Psicologia Analítica, existe um tipo de acontecimento que não se explica pela causalidade clássica, aquela lógica de causa e efeito que organiza o mundo material. Carl Gustav Jung chamou esse fenômeno de sincronicidade: a coincidência significativa entre um estado psíquico interno e um evento externo, sem relação causal, mas unidos por um sentido compartilhado.


Jung formulou esse conceito ao longo de décadas, culminando em seu ensaio de 1952, Sincronicidade: um princípio de conexão acausal. Ao usar o termo acausal, ele não propõe a negação das leis da natureza, mas aponta para seus limites: há acontecimentos que não se deixam compreender pela lógica linear e, ainda assim, produzem impacto psíquico profundo e transformador.


Quando o acaso parece ter alma... A sincronicidade não é uma coincidência estatisticamente improvável, nem um truque do destino. Ela acontece quando algo do mundo externo ressoa simbolicamente com um conteúdo psíquico ativo. Algo “encaixa”. E esse encaixe toca, desloca, reorganiza.


Para Jung, isso sugere que psique e matéria não são domínios totalmente separados. Por trás da aparente fragmentação da realidade, haveria uma ordem mais profunda. Para nomeá-la, ele recorreu a um antigo conceito alquímico: Unus Mundus, o “mundo uno”. Uma realidade primordial da qual o interno e o externo emergem como aspectos complementares. A sincronicidade seria, então, o instante em que essa unidade subjacente se manifesta empiricamente.



Arquétipos: a ponte invisível. Na perspectiva junguiana, quando um arquétipo está constelado, especialmente em momentos de crise, transição ou transformação, ele não atua apenas “dentro” da psique.


Os arquétipos possuem uma natureza Psicóide, isto é, situam-se numa zona limítrofe entre o psíquico e o material. Por isso, podem funcionar como fatores de ordenação que conectam um evento interno a um acontecimento externo, sem que haja uma cadeia causal entre eles. É nesses momentos que o mundo parece responder à alma. Não para explicar, mas para espelhar.



Na clínica, eventos sincrônicos costumam surgir quando o ego está fragilizado, quando antigas estruturas não dão mais conta, quando algo novo tenta nascer. Jung relata situações em que uma coincidência externa rompeu resistências intelectuais profundas, como no célebre caso do escaravelho, permitindo que o processo analítico avançasse não pela explicação racional, mas pelo impacto simbólico do acontecimento.


Esses eventos não vêm para provar nada. Eles convocam. Pedem escuta, reflexão e simbolização.


Por isso, a pergunta central diante de uma sincronicidade não é:“Isso é real? "mas sim:“O que isso quer dizer para mim, agora?”



Todavia, é importante dizer: nem toda coincidência acaso é sincrônica. Forçar sentido onde não há é uma armadilha, especialmente em momentos de vulnerabilidade psíquica.


A sincronicidade verdadeira tem um traço específico: ela produz impacto psíquico. Algo se move por dentro. Algo se reorganiza.


Ela não é barulhenta. Não vem com holofotes. Às vezes, é um detalhe mínimo, mas carregado de numinosidade.


Ciência, simbolismo e fronteira: Não por acaso, Jung manteve um diálogo intenso com o físico Wolfgang Pauli, um dos pioneiros da mecânica quântica. Ambos buscavam compreender se haveria um princípio de ordenação que atravessasse tanto a psique quanto a matéria. A sincronicidade surgiu, nesse diálogo, como uma hipótese de fronteira: não científica no sentido clássico, mas profundamente significativa para uma visão de mundo menos fragmentada.


Vivemos numa cultura que quer explicar tudo, medir tudo, dominar tudo. A sincronicidade nos convida ao oposto: à escuta. Não para obedecer cegamente aos sinais, mas para dialogar com eles.


Talvez o maior ensinamento da sincronicidade seja este: a vida não é apenas um encadeamento mecânico de fatos. Há momentos em que ela se comporta como um texto simbólico, e nós somos chamados a lê-lo não com a lógica fria, mas com a alma desperta.


Quando a coincidência tem alma, não é porque o mundo ficou mágico. É porque, por um instante, nós ficamos mais atentos.


Quando o sentido pede escuta, quando certos eventos parecem tocar algo profundo, pode ser importante não atravessá-los sozinho.


A escuta analítica oferece um espaço para que esses movimentos encontrem forma, tempo e simbolização.


Quando certos eventos parecem tocar algo profundo, pode ser importante não atravessá-los sozinho. A escuta analítica oferece um espaço para que esses movimentos encontrem forma, tempo e simbolização. Na clínica, esse trabalho acontece no encontro, na palavra e na atenção ao ritmo singular de cada pessoa, para que essas experiências possam ser acolhidas e elaboradas ao longo das sessões, no tempo próprio de cada processo, respeitando também suas sincronicidades.


Agda Galvão


Psicoterapeuta Junguiana


Referências que fundamentam este texto: Jung, C. G. (1952/1991). Sincronicidade: um princípio de conexão acausal. Jung, C. G. A natureza da psique. Sautchuk, E. A.; Fillus, M. A. (2020). Sincronicidade: relações entre a obra junguiana e novas proposições teóricas. Correspondência entre Jung e Pauli.

 

 
 
 

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