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Por que Precisamos dos Símbolos?

  • agdagalvaopsic
  • 20 de jan.
  • 5 min de leitura

Existe um cansaço que não se resolve com descanso, uma sede que a água não sacia, uma tristeza que não tem nome.


Mesmo cercados de tecnologia, conforto e informação, muitos de nós vivemos com a sensação de que algo essencial está faltando. Em silêncio, a alma grita. E nem sempre sabemos escutá-la.


Vivemos na era da hiperconexão, da informação instantânea e do progresso tecnológico sem precedentes. No entanto, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão vazios. Há um cansaço que não passa com o sono, uma sede que a água não mata e um ruído constante que abafa os sussurros da alma. O diagnóstico é sutil, mas profundo: sofremos de uma desnutrição simbólica.


Esse grito não é literal. Ele se manifesta de forma disfarçada: um desânimo sem motivo, uma angústia difusa, uma falta de sentido que se infiltra no cotidiano.


Muitas vezes, chamamos de ansiedade, estafa, crise existencial. Mas por trás disso pode estar algo mais sutil e profundo: a alma tentando se fazer ouvir.


Lembro de uma mulher que chegou ao consultório dizendo que não sabia exatamente por que estava ali. Sua vida funcionava: era produtiva, responsável, parecia forte. Mas, ao sentar-se, disse apenas:

"Está tudo certo… e mesmo assim está tudo errado."


Ela não trazia uma crise específica. Tinha casa, trabalho, saúde. Todavia, sentia que estava distante de si mesma, como se vivesse de fora para dentro. Falava de um cansaço que o sono não curava. De um vazio que nenhuma atividade preenchia.


Um dia, trouxe um sonho: caminhava por uma casa antiga, e no fim de um corredor via uma porta entreaberta. Sabia que algo importante estava lá dentro, mas acordava antes de entrar.

Ficamos com essa imagem por semanas. Não era algo a ser explicado, era algo a ser escutado. O quarto fechado parecia representar tudo aquilo que havia sido esquecido ou deixado de lado: sua sensibilidade, sua criatividade, seus desejos mais profundos. A parte viva, mas silenciosa, de sua alma.


Aos poucos, ela começou a pintar de novo. A escrever. A fazer caminhadas em silêncio. Pequenos gestos, aparentemente simples, que traziam de volta um sentido que não vinha de fora, mas brotava de dentro. Era como se, finalmente, ela tivesse aberto a porta. E lá dentro, não havia uma resposta. Havia presença.


Carl Gustav Jung compreendeu que a alma tem uma linguagem própria. E essa linguagem não é lógica nem direta. Ela fala por imagens, por sonhos, por símbolos.


Vivemos em uma época que privilegia a rapidez, a produtividade, a objetividade. Tudo precisa ter um resultado, um número, uma utilidade. O mundo foi ficando cada vez mais técnico, literal e raso. E é justamente nesse processo que perdemos a capacidade de perceber o que está por trás das coisas.


O mistério se esvaziou. O sagrado foi descartado. E com isso, os símbolos, que são como pontes para o invisível, foram silenciados.

Mas o que é um símbolo?


Na tradição grega, symbolon era um objeto partido em duas metades. Cada pessoa guardava uma parte. Quando se reencontravam, as metades eram unidas e o reconhecimento acontecia.


O símbolo, então, é aquilo que reúne, que liga o que está separado. Ele une o consciente ao inconsciente, o visível ao invisível, o ego ao Self.


Diferente de uma palavra, que apenas aponta diretamente para algo, o símbolo carrega significados profundos, muitas vezes não racionais. Ele é ambíguo por natureza. Ele não informa, ele transforma.


Quando olhamos para uma cruz, uma mandala, uma espiral ou uma serpente, estamos diante de imagens que carregam milênios de significado, ressoando algo em nosso interior que vai além do entendimento imediato.


Para Jung, os símbolos emergem espontaneamente do inconsciente, especialmente em momentos de crise, transição ou crescimento. Eles aparecem nos sonhos, nas fantasias, nos mitos, nos rituais, nas imagens arquetípicas que habitam todas as culturas.


Um símbolo verdadeiro não pode ser fabricado. Ele surge quando uma imagem toca a alma.

Quando deixamos de escutar essa linguagem, perdemos o vínculo com uma dimensão essencial da vida: aquela que não pode ser medida, mas apenas vivida.


Estamos tão acostumadas a olhar o mundo com os olhos da eficiência que por vezes esquecemos de ver com os olhos da alma. E a alma não se interessa por metas, produtividade ou curtidas. Ela deseja vínculo, beleza, silêncio, expressão. E sobretudo, significado.


A ausência de símbolos adoece a psique. Sentimo-nos desconectados de nós mesmos, dos outros e do tempo. Os ciclos deixam de fazer sentido. A vida parece uma linha reta, sem pausas nem marcos. Perde-se o rito de passagem, o tempo da espera, o sagrado do cotidiano. E então, buscamos preencher esse vazio com consumo, excesso de atividades ou distrações. Mas nada disso alimenta a alma.


A alma tem fome de símbolo. De imagens que tragam sentido. De gestos que tenham alma. De palavras que tragam presença.


O símbolo é também uma forma de orientação. Ele não nos diz para onde ir, mas nos mostra onde estamos. Ele ilumina o momento, não o mapa inteiro. E isso basta. Em vez de certezas, ele oferece direção. Em vez de controle, ele oferece comunhão. Como aquela porta entreaberta no sonho: ela não revelou tudo, mas indicou o caminho de volta para si.


Reencantar a vida é reaprender a olhar com reverência. É permitir que os objetos tenham profundidade. Que um gesto simples, como acender uma vela ou regar uma planta, carregue intenção. É voltar a perceber que tudo pode ser sinal de algo maior, se houver olhos para ver.

E como começar?


Pode ser escrevendo os próprios sonhos, deixando que eles falem por imagens. Pode ser prestando atenção à repetição de símbolos ou padrões que surgem em momentos difíceis. Pode ser cultivando rituais pequenos e silenciosos. Pode ser simplesmente desacelerando, para que o símbolo tenha espaço para aparecer.


A vida simbólica não é um luxo. Ela é uma necessidade profunda da alma. É o que nos impede de viver no automático, no vazio ou na alienação. É o que nos permite atravessar a dor com sentido, e a alegria com gratidão.


A alma está faminta. Mas ela também é paciente. E mesmo quando ignorada, ela continua chamando. Ela sussurra nos sonhos, nos corpos, nas repetições, nos pequenos acidentes, nos encontros inesperados. Cabe a nós decidirmos escutar.


Escutar esse chamado é um ato de coragem. É uma escolha consciente de viver com mais presença, mais verdade e mais mistério.


E você? Quais símbolos têm te visitado ultimamente? Como sua alma tem pedido para ser ouvida? E talvez, no fim das contas, sentido não seja algo que se busca. Sentido é algo que se habita. E o símbolo é a chave da porta.


Talvez seja tempo de parar. De olhar. De escutar. Porque o símbolo nunca grita. Mas quando nos toca, ele transforma tudo.


Palavras que não explicam, mas aproximam. Imagens que não informam, mas revelam. Histórias vivas, enraizadas na experiência talvez te ajudem a atravessar o que você ainda não conseguiu nomear. O convite está feito. A porta está entreaberta. Você pode entrar.



Agda Galvão


Psicoterapeuta Junguiana

 

 
 
 

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